É que nesses aglomerados de desilusões não se pode lançar olhares com sorrisos gratuitos. É preciso vestir uma carranca, um escudo que nos isole e proteja dos olhos que metralham tudo o que veem. São olhos cansados, com milhares de camadas que abrigam milhões de histórias: um longo percurso que os trouxe até aqui. E se hoje estão exaustos e armados é porque foram repetidamente violados, esfolados e expostos.
Porém, há olhos que exibem uma certa complacência em sua superfície. Por eles rezo a todos os deuses, santos e feitiços para que não sejam soterrados pela sujeira. Pois esses olhos, acima de tudo, são espelhos. E onde quer que eles se encontrem, na verdade, me encontram. Nos encontramos. Nos fitamos: meus olhos e os outros. Despidos, sentimos o alívio de nos desfazermos das couraças. Mas sem elas o que somos? Como sobreviver em meio às saraivadas desse ódio curtido em lágrimas secas?
Nenhum comentário:
Postar um comentário